A primeira vez a gente nunca esquece

By | August 22, 2012

Para tudo na vida, existe a primeira vez: O primeiro beijo, o primeiro ano de faculdade, o primeiro trabalho etc. Algumas experiências não foram tão boas quanto imaginávamos e outras, superaram as nossas expectativas.

Um dos momentos mais marcantes da minha vida foi a conquista do primeiro estágio, pois depois de participar de vários processos seletivos, consegui ser finalmente aprovado.

Imaginei que aquilo que eu lia em revistas como a Você S/A ou a Exame estava prestes a se concretizar. Tinha tudo para ser algo glamouroso: A empresa era uma multinacional americana, o escritório ficava no World Trade Center em São Paulo, o salário era acima da média do mercado, os benefícios eram atraentes etc.

Inicialmente, me colocaram na área financeira e eu estava muito empolgado para trabalhar e mostrar todo o meu potencial…até que conheci o meu primeiro chefe. Na verdade, eu tive dois primeiros chefes: um ficava na Argentina e outro no Brasil.

O meu chefe argentino era uma pessoa fácil de se relacionar e teve paciência para me ensinar sobre a empresa, os produtos e até alguns conceitos básicos de contabilidade. Fui a Argentina conhecê-lo pessoalmente e a recepção não poderia ter sido melhor. Após o expediente, ele me mostrou um pouco da cidade e depois jantamos em um ótimo restaurante de Buenos Aires.

Já, o meu chefe em São Paulo era uma pessoa totalmente diferente. Como diria o empreendedor Marcelo Sales (leia o artigo As conexões que movem a vida), ele era um ser jurássico, autoritário, não me ensinou nada e nem fez questão de saber o meu nome. Só vinha falar comigo para cobrar, me chamando por “Ow, amigo!”.

Lembro-me de uma vez que quis tirar uma dúvida e o abordei enquanto passava pelo corredor. Ele nem se deu o trabalho de parar para me escutar. Continuou a sua trajetória e a única coisa que me disse foi: “Não, não, não…esse é o seu trabalho!”.

O que me deixava mais decepcionado é que ele passava nos corredores e sequer me dava um bom dia, mas com as outras pessoas da área (coincidentemente todas do sexo feminino), ele era super atencioso, conversava, ria e perguntava se estava tudo bem com o trabalho.

Levei um balde de água fria e o meu entusiamo para criar, inovar e fazer a diferença foi, aos poucos, acabando.

Como o estágio tinha Job Rotation, fiquei 6 meses na área financeira e, após esse (longo) período, fui transferido para a área de negócios. Dessa vez, o meu gestor era um líder e não um coronel da ditadura militar.

Apesar da minha “primeira vez” não ter sido muito boa, ela me trouxe grandes aprendizados que carrego até hoje:

1. Desconfie quando tudo parece perfeito demais para ser verdade  

Talvez por ingenuidade ou falta de experiência (ou até mesmo por um excelente trabalho de marketing), muitas pessoas se iludem pelas matérias que leem sobre uma determinada empresa e acreditam que trabalhar lá será o ‘mundo dos sonhos’.

No artigo Você realmente conhece a empresa que quer trabalhar?, falei um pouco sobre essa questão, que é bastante comum, principalmente entre os jovens.

Não estou aqui para denegrir nenhuma empresa ou invalidar avaliações, e sim para colocar uma boa dose de realidade e mostrar que em qualquer lugar que você vá trabalhar, haverá problemas de relacionamento, discussões mais calorosas, conflitos de interesse etc.

Isso acontece pelo simples fato das empresas serem feitas por pessoas, que tem qualidades, defeitos, ambições e interesses pessoais.

2. Existem coisas na vida que o dinheiro não compra

Quanto vale a sua felicidade? Você aceitaria ser torturado psicologicamente todos os dias por esse valor?

Ao ouvir inúmeras pessoas, principalmente da Geração Y, uma coisa é fato: Não há dinheiro que retenha um jovem talento gerenciado por um péssimo gestor.

3. A gestão de pessoas deve começar pelas pessoas e não pelas políticas

Se havia algo que eu jamais poderia reclamar era da política de qualidade de vida da empresa: Havia sessões de massagem, palestras de conscientização, frutas da estação etc.

Apesar de serem ótimas iniciativas, tudo aquilo não compensava o mal-estar que a relação com o meu chefe gerava.

Por isso, focar em pessoas significa muito mais do que dar alguns benefícios. A missão de uma boa gestão é criar um ambiente favorável ao relacionamento e reconhecimento das pessoas e garantir que essa cultura seja preservada, custe o que custar.

 

Foto: FreeDigitalPhotos.net

 

2 thoughts on “A primeira vez a gente nunca esquece

  1. aline naomi

    “Quanto vale a sua felicidade? Você aceitaria ser torturado psicologicamente todos os dias por esse valor?”

    Isso resume tudo que eu pensava em um dos empregos por que passei. O ganho maior não era o financeiro, o melhor era que eu gostava muitíssimo do trabalho (pelo que vejo, é um privilégio gostar realmente do que se faz hoje em dia) e eu dava o meu melhor, mas infelizmente o ambiente ao redor não contribuía para o meu bem-estar profissional e acabei deixando o lugar.

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  2. Arnaldo

    Byong, eu passei por uma situação muitíssimo similar à sua. Apesar de não ser a minha primeira empresa, todos os outros pontos eram idênticos ao seu: empresa boa, salário acima da média e eu ainda tinha vários amigos da faculdade que trabalhavam lá.

    No entanto, o tormento desse período foi a minha chefe. Durante o primeiro semestre ocorreu tudo bem, depois disso ela custava a me ajudar, atenção quase nenhuma me era dada, trabalhos eram escassos e toda vez que eu reclamava a desculpa era sempre a mesma.

    Via meus amigos sendo efetivados ou promovidos e eu continuava penando na mão dela. Quando reclamava que estava sendo subaproveitado, ela dizia que eu deveria ficar estudando (?) e vendo alguns treinamentos, por que futuramente seria essencial. E eu continuava sem novos horizontes.

    O começo do fim, foi que após uma viagem particular em que voltei ao trabalho na terça-feira, tudo previamente avisado e conversado com ela, e aquela criatura me engata um papo dizendo que eu não seria mais aproveitado na empresa pois não estava sendo esforçado o suficiente. Tive vontade de dizer poucas e boas, mas me contive e apenas pedi para que ela repensasse e me desse mais oportunidades. Ela relevou, mas no fundo eu sabia que ela só estava abrindo a minha cova lá dentro.

    Depois de um tempo ela começou a abusar, me mandava apresentações de treinamentos pra eu ficar revisando e melhorando os slides pra ela, continuava insistindo pra eu estudar as apostilas (que eu relutava, pois sabia que na hora que tivesse que por a mão na massa ficaria muito abaixo do esperado, devido a falta de oportunidades).

    No fim, ela me aplicou uma prova para que ela pudesse “avaliar o meu conhecimento”. Veja que apesar de estar há 1 ano e 6 meses lá, ela pouco sabia do meu potencial e quase nada sabia do que eu poderia efetivamente produzir para a empresa.

    Tenho plena consciência de que fui bem na prova, acertei várias questões, mas depois de alguns dias ela veio me falar que eu não tinha mais o que contribuir com a empresa e seria desligado de lá. Quando pedi ao menos para ver as questões ela fez pouco caso e ainda disse, “isso nem interessa”.

    Infelizmente, acabei perdendo uma grande oportunidade de desenvolvimento de carreira e pessoal por causa de um ser como esse.

    A dica que repasso a qualquer pessoa que esteja lendo é que ao primeiro sinal de um clima não tão amistoso com o chefe, junte suas coisinhas e procure outra coisa pra fazer, ou então mude de área dentro da empresa. Quando o seu chefe quiser colocar o seu na reta, ele não pensará duas vezes e muito menos precisará argumentar algo.

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